27 fevereiro 2013

A polêmica sobre uso dos espaços públicos em Curitiba

Foto: Thiago Fernandes

A Gazeta do Povo publicou na edição desta quarta-feira (27) reportagem sobre pedido de moradores e comerciantes do São Francisco para alteração do local de realização da Quadra Cultural, evento gratuito organizado e realizado há cinco anos pelo proprietário d’O Torto Bar, Arlindo Ventura, o Magrão. De acordo com a reportagem, os reclamantes apontam o barulho e a sujeira, além de supostas pichações nos prédios vizinhos apresentadas após o evento, como justificativas do seu pleito. Importante a leitura na íntegra do texto por todos nós, moradores da cidade, mas faço aqui destaque a alguns pontos da reportagem que suscitaram algumas dúvidas:

“De acordo com os moradores que organizaram o abaixo-assinado, foram coletadas cerca de 130 assinaturas, incluindo pessoas que moram e trabalham na região”
Não tenho conhecimento sobre o Direito, mas aqui observa-se a mesma questão já apresentada na polêmica sobre a Pedreira Paulo Leminski: o interesse individual X interesse coletivo. A organização da Quadra Cultural estima a participação de 7 mil pessoas nesta edição do evento. Quem, assim como eu, passou por lá durante qualquer horário do dia viu jovens, idosos, crianças e famílias que viram na Quadra um ambiente seguro e confortável para passar um sábado de lazer. A disparidade entre o número de reclamantes e o número de pessoas que usufruíram do evento – muitos dos quais também moradores e comerciantes vizinhos - já salta aos olhos por si só, mas torna-se ainda mais duvidosa quando se analisa a seguinte informação:

“Proprietária de uma padaria na Rua Carlos Cavalcanti, Andrea Engelhardt reconhece que assinou o documento achando se tratar de um movimento contra a pichação. “Assinei achando que era outra coisa. Eu até acho que, nesse movimento de revitalização da região, a Quadra Cultural só acrescenta. E como é um evento que ocorre só uma vez ao ano, não incomoda tanto”, diz.”
Não cabe aqui suspeitar a idoneidade dos responsáveis pelo abaixo-assinado, mas não se pode negar que a legitimidade deste documento é colocada em questão quando a proprietária de um dos estabelecimentos mais tradicionais da cidade, vizinha à esquina da Paula Gomes com a Duque de Caxias, afirma ter assinado o pedido achando se tratar de outro motivo. Mais do que isso, há a informação de que o abaixo-assinado ficou disponibilizado nesta mesma padaria para que os clientes pudessem também assiná-lo, o que aumenta a preocupação em torno do número fiel de pessoas realmente incomodadas com evento. No mínimo, cabe aos órgãos que acolheram o pedido a tarefa de averigurar entre os 130 reclamantes quem, de fato, endossa seu conteúdo.

“A Quadra Cultural é um patrimônio da cidade e precisa ser mantida. Mas entendemos que as reivindicações dos moradores são legítimas. Se trata de um evento privado que causa impacto na região. Vamos trabalhar para chegar numa solução com consenso”, afirma o presidente da Fundação Cultural, Marcos Cordiolli.
Aqui o ponto que mais chama atenção. Ao que consta, este foi o primeiro ano em que a Prefeitura de Curitiba, por meio da Fundação Cultural, apoia oficialmente a Quadra Cultural. Penso que avaliar o evento de rua que, como sabe-se, promove atividades culturais gratuitas no intento de resgatar o brilho do São Francisco, como uma ação privada é uma interpretação menor sobre o que é acesso à cultura, tão mais preocupante quando vinda do órgão máximo da Cultura na cidade. No mais, creio que o papel da Prefeitura e da Fundação Cultural deva contemplar, para além da estampa de suas marcas nos materiais de divulgação do evento, o provimento do diálogo com a comunidade do entorno, bem como garantia de segurança aos frenquentadores.

Todo tipo de intervenção urbana causa impacto, seja motivada pela promoção da cultura, por obras de infraestrutura ou, como temos observado mais recentemente, até mesmo para receber evento esportivo do porte da Copa do Mundo. Como morador, penso que devemos avaliar na totalidade da comunidade em que medida esses impactos interferem a rotina dos indivíduos e o ir e vir dos moradores. Se aguentamos o barulho das escavadeiras para construção de um shopping, se suportamos as limitações do trânsito para correção de asfalto das ruas e se entendemos que é preciso sair ainda mais cedo para pegar a Avenida das Torres enquanto ela não recebe seu viaduto estaiado, por que não podemos aguentar um dia, o único em um ano inteiro, o dito impacto pela promoção da cultura de forma segura, organizada e disponível a todos – sem distinção?

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