04 abril 2013

Você já atropelou um velho hoje?

Reprodução Band B/Gazeta do Povo/Bem Paraná/Paraná Online

A morte de Benedito Fusco, vítima de atropelamento, na última segunda-feira (1º de abril) chama atenção para uma grave recorrência observada em Curitiba: a morte de idosos em acidentes de trânsito. Fusco foi atingido por um carro enquanto atravessava a Rua Gonçalves Dias, no Batel, e perdeu a vida aos 68 anos de idade. O condutor do veículo, segundo informações da Polícia Militar, não possuía carteira de habilitação.

Uma consulta rápida aos portais de notícia revela uma frequência assustadora de mortes em contextos semelhantes a este, numa coincidência de personagens, cenários e ações igualmente espantosa: José Benedito, 82 anos, atropelado na Avenida Juscelino Kubischek de Oliveira, na Cidade Industrial, após descer de um ônibus; Leocádia de Menezes, 93 anos, atropelada por carro enquanto atravessava a Rua Guilherme Pugsley, no Água Verde; Nivaldo Zotteli, 78 anos, atropelado por moto na Rua João Falarz, Campo Comprido.

Ao olhar para estes casos – e os quatro aqui registrados estão longe de representar a totalidade – é possível supor que a recorrência deste tipo de acidente esteja ligada ao aspecto comportamental das vítimas. Há 20, 30, 40 anos, o volume de veículos em trânsito nas ruas, a quantidade dos chamados pontos cegos e o próprio hábito de andar a pé não encontram comparativos com a configuração das grandes cidades hoje em dia. O modo como nós, pedestres, usufruímos da cidade modifica-se a cada dia.

O idoso como fator de risco, que é observado nessa questão, se assemelha a outra realidade relacionada à mortalidade de pessoas com mais de 65 anos: a Aids. Na última década, a incidência do HIV em idosos brasileiros dobrou. Segundo especialistas, a resistência quanto ao uso de preservativos é uma das principais causas associadas à propagação de vírus entre os mais velhos. Nos dois casos, problemas da atualidade atingem especialmente àqueles que tiveram seus hábitos construídos ontem.

A diferença fundamental, contudo, está no nosso comportamento. Comportamento dos filhos, netos e bisnetos dessas pessoas. “Atropelar idosos” tem um sentido literal quando se fala em morte de pedestres vítimas de colisões. Mas não é só isso. Atropelamos um idoso toda vez que ameaçamos arrancar o carro quando o sinal fica verde e aquele velho insiste em atravessar a faixa devagar. Passamos por cima de uma idosa quando suas mãos trêmulas demoram a pegar um ticket de estacionamento e a nossa buzina começa a gritar. Atropelamos um idoso – mas só por cinco minutinhos – quando estacionamos o carro na vaga exclusiva.

Modificar essa realidade é tarefa das mais complexas. Não à toa o público idoso figura entre as prioridades do Vida no Trânsito, projeto executado em Curitiba pela Setran que integra uma ação global da Organização Mundial de Saúde (OMS). A redução dos índices de mortes no trânsito envolvendo idosos demanda investimentos públicos na estrutura das cidades. Integram esse investimento o desenvolvimento de calçadas seguras, mais faixas e passarelas para pedestres, sinaleiros com tempo de passagem adequada e mesmo a descentralização da oferta de serviços, de modo que as pessoas não precisem se deslocar tanto dentro da cidade e possam suprir suas necessidades de consumo, trabalho e lazer nos bairros.

Nada disso, porém, será suficiente se o comportamento seguro no trânsito não for incorporado em nossas ações. Passa por nós a responsabilidade de zelar pelos idosos, entendendo suas limitações e lembrando-se de toda a contribuição que já deram à sociedade. Afinal, seremos também atropelados. E atropelados por quem costuma ser ainda mais fatal do que qualquer veículo: o tempo.

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